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A VALSA DAS ALMAS
-Carlos Morais-
Caía a noite.
Um observador incauto diria que nada
a distinguiria de outras noites, mas quem
as percebe com a voz da emoção sente que há
um mistério diferente, que as distingue e que as
perfuma com um sabor, a doçura e o encanto
que torna a vida sedutora e mágica.
Um caminhante apressado pela vida encurtou o
seu passo, e eis que os seus olhos divisaram
algo irreal na beleza bucólica daquela noite.
Um homem e uma mulher dançavam seminus,
mordiscando as ondas que passavam a seus pés.
Aproximou o seu corpo para mergulhar melhor.
naquela sedutora imagem, a alma leve deixou
o corpo, e o coração quase parou pelo tamanho
enlevo, pela cumplicidade silenciosa que unia
aqueles dois num só.
Aquele quadro de vida acontecia
mesmo defronte de seus olhos,
e já não sabia o que dizer, a mente e o
corpo estavam ausentes e o que ficava e
transparecia eram os sons das
almas apaixonadas, que se amavam
sem quase se tocarem os corpos.
A vegetação circundante extasiada
aceitou com um sorriso de pureza
aquela manifestação divina.
Pois aqueles dois mais pareciam
anjos abraçados pelo mesmo ideal,
harmonizados pela mesma vibração.
A natureza conspirava para que a magia
nessa noite não conhecesse o sortilégio dos
opostos, e até os pequenos animais falavam
em surdina para que não se calasse
aquele encanto.
O observador partia para outras aventuras e
outras experiências, pois respirava
outro estado de ser amor.
Aqueles dois tinham-lhe descerrado
a porta e um novo infinito se descobria
para que a magia de todas as noites
e de todos os dias não termine nunca.
Aquela valsa harmoniosa,
aqueles dois que se amavam
mansa e apaixonadamente como
só os paradoxos explicam.
Tinham permitido que aquele caminhante se
encontrasse com a sua lenda pessoal.
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